domingo, 14 de julho de 2013

Sobre pontos e sentimentos

Sei que antes de qualquer coisa, para você isso tudo é uma grande interrogação. Não se engane, para mim também é. Mas, confie em mim: ainda não é hora de por um ponto final. Foram poucos dias, poucas conversas. Intensas, eu sei; mas todas elas cheias de vírgulas. Benditas vírgulas. As minhas, há muito tempo, atrasam tudo o que acontece agora. As suas, eu acho, têm um Q de hesitação, sempre acompanhadas de conjunções adversativas, tantos “mas”, “porém”, “contudo”... Mas, agora sim, chega o que tem sido o nosso rumo. Reticências. Três pontos e um gosto de incerteza no ar. Não aquela incerteza da interrogação, mas nada próximo da dureza de um ponto final. Elas trazem a sensação de que não acabou, de que nós (e não só eu) vamos nos lembrar disso. Não deixe que minhas exclamações sejam em vão.

Nu elevador

10, 9, 8, 7... A sequência continua até que as portas se abram. Um sorriso amarelo, um “bom dia” que não deseja nada e a timidez que faz as cabeças se abaixarem. Uma cena que se repete todos os dias, em todas as manhãs, de todos os prédios. Gosto de observar o comportamento das pessoas dentro de um elevador. Chego a achar que muitas delas estão nuas, de tão encolhidas, envergadas, envergonhadas. Talvez o ambiente diminuto cause um relativo constrangimento naqueles que dependem desse “meio de transporte”, mas a dificuldade de encarar seus iguais é algo que me intriga. Olhar nos olhos, pôr-se em postura reta, fazer um cumprimento digno.

Os subterfúgios dos acanhados são muitos. Futricam no celular, abrem um jornal, arriscam um incômodo assovio. Os mais masoquistas até leem os interessantíssimos avisos do condomínio. O uso da linguagem fática é recorrente, ainda mais quando se tem um cunho meteorológico  “E essa chuva, hein?”, “Ah, o calor hoje tá demais!”, “Será que esse tempinho vai melhorar?”, e por aí vai.

Há também os exibicionistas, que têm como maior aliado o espelho emoldurado nas paredes do veículo. Esses são terríveis! Ajeitam a roupa, o cabelo, os óculos... Sem falar nos nojentos que se atrevem a fazer uma limpeza de pele, espremendo cravos e espinhas de proporções descomunais.

Quase todas essas cenas contam com a supervisão de um vigilante: sob uma cúpula negra, uma câmera obscura registra tudo e todos que passam pelo elevador. Coitados daqueles que aproveitavam o cubículo para rápidas e volúveis relações amorosas! Claro, há o (verdadeiro) argumento da proteção, afinal “temos que manter a segurança do prédio”, “zelar pelo bem-estar dos moradores”. Mas, confesso: fico pensando se não há um síndico ou porteiro voyeur contemplando o que acontece dentro desse estranho e útil aparelho.

O elevador também pode ser visto como um microcosmo da realidade. Há o social e o de serviço. Seguindo a lógica da nossa sociedade, um recado ao proletariado. Faxineiras, carteiros, manicures, entregadores, eletricistas e encanadores: vocês não merecem utilizar o mesmo espaço que as garbosas senhoras da high-society usam para carregar seu enfeitado yorkshire. Talvez, de fato, não mereçam.

Todavia, o trauma não é duradouro. Às vezes, ele demora a chegar, mas – graças a Deus, alguns exclamariam – a viagem é rápida. Alguns segundos, minutos talvez, e você já está no destino desejado, são e salvo (caso não se depare com uma menina-fantasma, é claro). Por fim, um “até mais” a quem, talvez, nunca mais se irá ver.

* Texto publicado originalmente em abril de 2013, na edição 58 do jornal Samambaia, publicação dos estudantes de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG.

Baseado em fatos imaginários

Certo dia, Dáblio, primo de Jota, foi convidado por Éme para ir numa famosa boate sertaneja da capital. Dáblio é um sujeito esperto e conheceu Éme por causa de seu primo. Aceitou o convite e, todo cheio de si, não ficou contente em ir sozinho. Acabou chamando outro amigo - ou cúmplice -, que de tão desimportante, nem nome tem. Mas Dáblio é daqueles que nunca comeu melado, então, quando come... Fazendo cortesia com o chapéu alheio, acabou chamando também uma patota de meninas desajustadas, de gordinha à nariz de batata.

Aproximando-se a hora do frevo, Dáblio passou seu perfume barato, fez um ninho de passarinho na cabeça, e "hashtag partiu". Chegando lá, mais entontecido pelo deslumbre do ambiente nada familiar do que pela bebida que ainda não tomara, começou a cometer devaneios. De uma hora para outra, enriqueceu e virou o "patrão da balada". Whisky, água de coco e até um tal de "tanto faz" que não havia no cardápio: pediu e bebeu de tudo. Mas só isso não bastava, era preciso agradar seu pequeno harém. Fosse rechonchuda ou nariguda, matou a sede de todas elas.

Porém, a certa altura, o castelo de cartas começou a ruir. Num lapso de lucidez, atentou-se para o fato de que não havia "crébito" nos mirrados cartões magnéticos para o pagamento da estrondosa fatura. O sorriso sincero e amarelo foi substituído por uma cara de bosta rala. Triste fim. E agora? Apanhar dos seguranças? Lavar os copos? Não! Havia uma solução mais eficaz e coerente com seu parco caráter. Sem hesitar, chamou Éme (aquele, querido leitor, do começo da história, que acreditando numa suposta amizade, fez o tão trágico convite).

"Meu parceeeeeeiro", conclamou, "preciso de sua ajuda". Bêbado e estranhando a situação, Éme sacou um surrado cartão do bolso. Cambaleando, digitou uma senha e salvou a pele de Dáblio. Lemboru-se da burrada só no outro dia, quando em meio à uma ressaca, acordou com o comprovante na mão. A partir daquele momento, a saga começou a ser outra: já avisado de algumas atitudes malandrísticas do suposto amigo, Éme conseguiria ressarcir-se do prejuízo? Cenas do próximo capítulo.

Revelando retratos da memória

Não é tristeza, nem um sentimento depressivo. É algo que eu ainda não sei como chamar, que compreendo e não consigo entender. Talvez um dos maiores desafios da vida seja aprender a não se apegar, deixar as coisas fluírem e irem pelo seu desconhecido caminho. Mas, confesso, é um aprendizado difícil. Sei que não é possível – nem recomendável – abraçar o mundo (e eu costumo tentar isso todos os dias, sem falha), mas não sei se estou preparado para concentrar-me em uma única pessoa. Sei também que dói ver o que já perdi, as oportunidades que passaram, as mulheres que conheci. A dor não é ver a alegria alheia, mas saber que não dei o valor devido a quem merecia. Ou talvez nem merecesse... Entre dúvidas, a certeza é que a felicidade mora logo ali. Entre cafés e palavras, a gente descobre. Prometo a mim mesmo.